Jonathan Holdorf. 2021.

Cansada do paisagismo, lá foi a Flor.
Entediada estava de olhar prédios e concreto
e ser beliscada pelos bicos finos dos passarinhos.
A Flor o sol amava, radiante em uma incontestável beleza.
Pouco era para ela, infelizmente, o calor do sol.
Queria mais, muito mais:
queria estar além de um horizonte cinzento de uma cidade;
queria estar além do balcão no qual deixavam-na o dia todo, todo o dia.
Solitária, ficava.
Pensava ser importante, mas pouco era.
Era bela, mas beleza passava. Era o que esperavam dela.
Caso o seu fim chegasse, trocada seria por outra.
Outra melhor. Outra mais cheia de vida. Brilhante. De pura cor.
Sabia que seu instante seria minúsculo.
Afinal, era uma flor. Para seus donos sua vida não passava de enfeite.
Para ela, sua vida dependia do deleite.
Cansada estava de todo aquele paisagismo.
A Flor, que de vaso tinha uma xícara azul, decidiu viver.
Pôs-se a descer do balcão, e tão logo pelas escadarias.
Viu-se na rua, na imensidão do mundo, que até então só vira do alto.
Não levou muito e estava em alto mar, flutuando.
Lançava-se pelas ondas enquanto recebia o calor do sol.
Os respingos refrescavam suas pétalas.
A torrente chacoalhava todo o seu viver.
Estava, finalmente, vivendo.
E toda sua vivacidade, um dia, sentiu esvair.
Encontrou-se na beira da praia, atirada.
Sua xícara quebrada.
Sua terra na areia molhada.
Sua água vazada.
Percebera que medo nenhum sentia
sabendo que sua vida agora encerrava.

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